Tem muita gente hoje em dia que afirma que a história do MSX no mundo se
divide em antes e depois da Internet. Eu já nao sou tăo exagerado assim,
mas fico feliz em ver que nos últimos anos minha participaçăo foi
expressiva. Atrevo-me a dizer que foi através de mim que tudo comecou,
sem falsa modéstia nem exageros. Mas, de qualquer forma, o que me deixa
mais satisfeito é saber que consegui fazer diferença, năo ser mais um
que só resmunga, mas um que faz alguma coisa. Bem... Sem mais
delongas... Vamos a história.
O início - Maio de 1986, ops, Agosto de 1993...
Tudo começou em 1986, quando, entăo com 12 anos ganhei meu
primeiro computador, um MSX 1.0. Eu já tinha visto um funcionando na
casa de um amigo do meu pai, e achei o maior barato.
(Nota do Autor: Hmm... Isso năo interessa muito. Vamos pular 7 anos)
Ganhei meu acesso ŕ Internet em Agosto de 1993. Eu estava entăo
no sexto período do Bacharelado em Matemática na UFRJ, aqui no Rio de
Janeiro, e comecei a imaginar o potencial dessa rede, e ao que eu tinha
acesso. Como MSXzeiro que sou, o meu primeiro mail em portuguęs para uma
lista de discussăo (enecomp-l) indicava que eu estava procurando
MSXzeiros para trocar idéias, experięncias, programas, etc. Tive algumas
respostas (para ser exato, uma ou duas, năo lembro), mas fiquei triste,
pois os que me responderam năo estavam lá muito interessados em trocar
"figurinhas". Ainda me lembro do nome de um dos sujeitos, era o Sandro
Enomoto, que tinha aparecido em alguma revista, se năo me engano a MSX
Micro (ou era a CPU-MSX?).
Depois de um tempo, recebi um mail do Chile. Estranhei muito:
"Ora, năo conheço ninguém no Chile! Para ser exato, năo conheço ninguém
em lugar nenhum!". O mail era de um sujeito chamado Max Celedon Collins,
um amigo interneteiro com que mantenho contato até os dias de hoje. Ele
tinha lido o meu mail na lista de discussăo enecomp-l e queria conversar
sobre MSX. Como espanhol năo é nada facil de entender (embora seja
parecido com o portuguęs) combinamos bater papo em inglęs. Ele me contou
que no Chile eles usam MSX 2 fabricados pela Talent (Argentina) e que
ele liderava um grupo de usuários, a COMPAC Corp. (nada a ver com a
COMPAQ - fabricante de PCs). Ele queria entrar em contato com os
MSXzeiros brasileiros, trocar idéias, programas, etc. Eles conheciam o
Graphos III (quem é antigo lembra-se dele), o MSX Page Maker, etc.
Usavam Turbo Pascal e Assembly, tinham livros e revistas que vinham da
Argentina (como a Load MSX), mas em suma a situaçăo MSXzeira chilena era
(e ainda é) pior do que a nossa.
Começamos a trocar programas (peguei até uma foto digitalizada
da namorada dele!) e informaçőes. Peguei o emulador de ZX-Spectrum
criado por eles, usei e gostei, e ainda dei força a eles para colocar
disponível na Internet. Colocaram, e se vocę olhar os arquivos-texto que
acompanham o emulador, verăo o meu nome lá escrito. Depois disso,
resolvi fazer uma listinha, com o nome dos MSXzeiros que eu encontrava
por aí, justamente por năo ter um meio de centralizar todos (como uma
lista de discussăo, por exemplo). Incluí os amigos deles (mais uns
quatro chilenos), e alguns brasileiros que ocasionalmente apareciam e
mandavam um mail, afora alguns conhecidos. Nesses conhecidos estavam
pessoas razoavelmente conhecidas no microcosmo MSXzeiro, como o Rubens
Henrique Kuhl Jr., autor do Fast!Copy (aquele copiador setorial rapido,
lembram?). Fui anotando e a lista foi crescendo... Fiz uma versăo da
lista que era um convite aos MSXzeiros fazerem parte da minha listinha e
conversarem conosco, trocando idéias, mas a maioria dos papos eram
travados entre eu e o Max mesmo.
Através do Max consegui o e-mail de dois usuários no Japăo,
sendo um deles brasileiro. Mandei mensagens aos dois, e só o brasileiro
respondeu. Ele disse que falar sobre MSX naquela altura do campeonato
(1993) era piada. Ele năo via nada sobre MSX no Japăo há anos, e que eu
estava perdendo o meu tempo. Mal ele lembrava que a fabricaçăo do
Turbo-R tinha sido suspensa naquele ano... Mesmo assim, insisti e ele me
passou o e-mail de um cara da ASCII (Akira Matsumoto, se năo me engano),
só que ele nao entrou em contato comigo. Teve mais um outro, funcionário
da Sony, que conversamos e trocamos algumas idéias, mas sem muito
sucesso.
O início da revoluçăo - Fim de 1993
Foi no final de 1993 que eu comecei a usar o IRC - Internet
Relay Chat - e usava um nickname (apelido) que causava algumas reacoes
ao pessoal: MSXzeiro. Alguns disseram: "Puxa, eu ja tive um MSX! Vocę
tem?", mas a maioria era indiferente. Lembro-me de uma conversa com um
grego, Stratos Nikolaidis, tambem conhecido como Conan, onde ele me
falou que o MSX chegou a aparecer na Grécia, mas năo foi muito falado.
Um dia, decidi jogar com a sorte e pulei para o canal #MSX. Eu
pensava: "Ah, năo deve existir o canal, logo so deve ter eu por aqui..."
Mas foi grande a minha surpresa quando vi tręs pessoas no canal. Dei um
pulo da cadeira e um grito de felicidade! Isso, dentro de um laboratorio
da universidade... Imagina a minha vergonha depois, ainda mais porque o
IRC năo era para ser usado durante o horário de trabalho! Desses tręs,
só um falava (MetalGear). O nome real dele é Alexandre Rajsjalt, ele era
editor da revista Forum MSX Magazine, na Bélgica. Infelizmente ele năo
tinha e-mail (usava o de um amigo e ainda năo existia servico de email
gratuíto), mas a gente bateu alguns papos, sobre os jogos Metal Gear I e
II (ele acabou os dois - uau!), e trocamos algumas idéias. Mandei meu
endereço postal para ele, e em janeiro de 1994 recebi uma carta da
Bélgica, com um número da Forum MSX Magazine (em francęs e com um
disquete em anexo) e uma carta bem-humorada. Lógico, guardo a revista
até hoje, embora meu francęs hoje seja bem fraco (quem sabe no futuro eu
năo consigo traduzir toda a revista?)
Encontrei depois uma lista de discussao sobre CP/M, e mandei uma
mensagem (semelhante as outras, procurando MSXzeiros) para eles. Um cara
do Rio Grande do Sul me respondeu, inclusive sugerindo-me a assinar essa
lista. Essa era uma lista internacional, e eu pensei: "Hum, o MSX tem
muita coisa de CP/M, como o Turbo Pascal, WordStar, PMARC/PMEXT, etc.
Vou assinar, pode ser que eu ache algum MSXzeiro.". Assinei, e no dia 7
de janeiro de 1994 surgiu um mail de um cara da Holanda - Wiebe Weikamp
- procurando MSXzeiros que assinasssem essa lista. Respondi a ele, e
começamos a conversar. Mandei uma copia da minha listinha para ele, e
depois recebi mais dois mails, do Roderik Muit e do Stefan Boer. O
Wiebe Weikamp era SysOp da Hack-Track BBS (funciona 24 hs num MSX) e
criador da MSXEchoMail, uma rede de mensagens que funciona via BBSes.
Havia também a MSX-Net, uma outra rede de mensagens. O fato curioso é
que a primeira funciona em cima de micros MSX como hosts do BBS. Já o
Roderik Muit era SysOp do BBS da MSX Club Gouda, conhecida por produzir
hardware para MSX no inicio dos anos 90, além de ser membro da FCS, um
grupo de usuários holandęs (hoje extinto). O Stefan Boer era entăo o
diretor-executivo da Sunrise Foundation, uma "fundaçăo" dedicada ao MSX
que realizava entre outras coisas encontros, festas, feiras, vende
software, edita revistas, etc. Dentre estes, a Sunrise continua ativa
hoje em dia apenas na sua ramificacao suiça (Sunrise Swiss). A Sunrise
Hardware Service encerrou suas atividades em 1997, deixando vários
credores a ver navios. A Sunrise Foundation continuou ativa ate 1999,
quando o Rob Hiep passou para "as sombras", e com o fim da MCCM (revista
holandesa dedicada ao MSX), o mercado diminuiu. Năo sei se a Sunrise
continua vendendo software e hardware (creio que sim), mas deve estar
trabalhando apenas com o mercado local (Holanda).
E a MSX-revoluçăo começou. A minha lista voltou com mais do que
o dobro do tamanho. Havia uma penca de usuários holandeses adicionada. E
o pessoal queria conversar com usuários no Brasil, saber o que tinha de
MSX aqui com a gente. Para eles o MSX no Brasil era um sistema nulo, o
que nós sabemos que năo. E a lista foi crescendo, muito mais rápido do
que eu podia esperar.
Profissionalizaçăo da lista e crescimento
Voltei ŕs aulas em março de 1994 (sétimo período) todo animado. Agora
precisavamos dar uma certa estrutura ao nosso microcosmo dentro da
Internet. Mandei uma cópia para o Lauro Faria, SysOp do BDI BBS,
coordenador da área Rio da FidoNet e autor do MSX Guide (um boletim
anual contendo muita informaçăo sobre MSX - năo é mais editado), e ele
me mandou um mail com várias sugestőes para tornar a lista mais fácil de
ler, com mais dados e mais profissional, a saber:
* Colocar, além do nome e e-mail, qual a versăo do MSX.
* Separar por paises.
* Adicionar endereços de sites FTP, WWW, etc.
* Colocar dados sobre CP/M também.
* Incluir uma introduçăo.
* Reservar espaço para o nome do grupo de usuários a que faz
parte.
* Adicionar uma história da lista.
* Colocar o total de inscritos.
* E outras coisas...
Aceitei as dicas e mexi na lista. Deu muito trabalho, mas ela
ganhou o formato atual. O Lauro ofereceu-se para colocar um reply
automatico no seu BBS. Logo, vocę enviava um mail para
msxlist@bdi.ax.apc.org (năo adianta fazer isso hoje, esse e-mail nao
existe mais) e depois de um tempo vocę recebia uma mensagem, contendo a
lista. Tentamos enviar a lista pela FidoNet, mas acho que năo teve
muitos frutos, afinal eu năo tinha modem na época. Como a gente năo
tinha uma lista de discussăo, entăo as novidades eu mesmo acrescentava
no fim da minha lista. Todo mundo pegava uma cópia, logo era o melhor
meio de divulgar informaçăo. Tentamos organizar um IRC-encontro, mas
justamente naquele dia a rede da UFRJ saiu do ar.
E foi assim até o final de maio de 1994. Aquele męs foi marcante
para nós... Havia um finlandęs (Markus Valtokari) que queria abrir um
"espelho" da rede CP/M do SimTel em um site na Finlandia (a Funet). Só
que ele queria abrir um diretorio de MSX tambem. Isso para a gente era
muito importante, já que năo tinhamos onde depositar software para que
os outros pudessem pegar e usar. Ele entrou em contato conosco, e nós
(eu e alguns caras da Holanda) demos o maior apoio. Entăo, no meio de
maio de 94, foi aberto o primeiro de muitas outras áreas disponíveis
para os MSXzeiros na Internet: ftp://nic.funet.fi/pub/MSX/. O moderador
era o próprio Markus, e fui o primeiro cara no mundo a fazer uploads
para lá (taí um motivo de orgulho!). Ele criou alguns diretórios
(seguindo a orientaçăo do pessoal) e foi colocando os arquivos onde a
gente indicava.
Foi um bom serviço o dele... Mas que durou poucos meses.
Acontece que ele năo tinha tempo para gerenciar o diretório de CP/M,
quanto mais dar atençăo para o de MSX! O próprio Markus me ofereceu o
lugar de FTPmaster, mas a distância era continental, e meu tempo era
pouco. Depois de um tempo o site ficou largado, até o Roderik Muit
(roderik@ripe.net) assumir o lugar do Markus e manter organizado a
bagunça generalizada em que se encontrava o nosso primeiro FTP site.
Posteriormente o Tristan Zondag (omegamsx@noord.bart.nl) assumiu o posto
e trouxe muitas novidades, como muitas revistas em disquete (Compile
DiskStation, Dragon Disk, Sunrise PictureDisk, etc.), jogos novos,
demos, etc.
No fim desse mesmo męs, recebi uma mensagem do Wiebe
(wiebe@stack.nl). Li e quase nao acreditei! Era uma solicitaçăo para eu
me cadastrar numa lista de discussao (majordomo@stack.nl) sobre MSX! Eu
quase caí duro, isso era tudo que nos procuravamos há tempos.
Cadastrei-me logo na lista e a minha primeira mensagem foi felicitando
aos já cadastrados, por fazerem parte daquele que foi mais um grande
passo para criar uma "comunidade" MSXzeira. E nessa lista o pessoal
discutiu nos ultimos anos desde os assuntos mais prosaicos, como
instalar um segundo disk-drive num micro da Philips, até as loucuras
mais inimagináveis, como processamento paralelo usando um cluster de 4
ou 8 MSX 1 (afinal, la o MSX 1 é obsoleto há mais de 15 anos).
Trocamos muitas idéias, formando um canal de comunicaçăo
Brasil-Holanda, que veio a topar com os BBS. O Fernando Carneiro, autor
do MSX-OFFLINE, criou um gerenciador de BBS (o que ele usa para manter o
FireHawk BBS) que funciona sobre um MSX 2 com dois drives de 5 1/4",
mapper e Megaram Disk (eu ja ví o FH funcionando, afinal, o Fernando era
o meu "tecnico de manutencao de plantao"). Posteriormente, o Fernando
fez uma conexăo experimental durante um tempo com o Hack-Track BBS,
fazendo troca de pacotes internacionalmente. So que o modem do Fernando
era um famoso TM-2 da Gradiente, com 300 bps ou 1200/75 bps. Logo, no
maximo 1200 bps para trocar os pacotes... E pensar que lá é
relativamente fácil encontrar MSXs ligados a modems externos via
interfaces seriais, com até 19200 bps. E na FH BBS havia uma conferęncia
chamada `MSX NET'.
As novidades das feiras de Tilburg, Zandvoort (fora os encontros
em Barcelona, Sevilha, Toquio, Lyon, Alemanha, Inglaterra, etc.) e
anúncios de software e hardware, todos eles passaram pela lista
internacional. Exemplos? Moonsound, GFX9000, interfaces seriais rápidas,
IDE e SCSI (como a Sunrise ATA-IDE, a Novaxis e a Mega-SCSI), Pumpkin
Adventure 2 e 3, Akin, Blade Lords, Magnar, Sunrise Magazine, Pentaro
Oddysey, Sonyc, Puddle Land, demos, etc. Sempre tinha um usuário bacana
que pensava em nós, MSXzeiros de fora da Europa e escrevia um texto (em
inglęs) para contar as novidades da feira ao pessoal da lista. Eu,
especialmente banquei o "chato" muitas vezes, sempre pedindo informaçőes
sobre as feiras. Ficavamos impressionados com a produçăo de soft e hard
para MSX na Europa, principalmente na Holanda. As redes de BBS baseados
em MSX já eram grandes ajudas, mas graças ŕ Internet, os grupos de
outros países, como Espanha, Italia, Inglaterra, etc., se reanimaram.
Com o tempo, entraram alguns japoneses e coreanos na lista.
Descobrimos que na Coréia do Sul o MSX ainda é um sucesso de público, e
no Japăo a coisa năo estava tăo feia assim como falou-me aquele
brasileiro, funcionário da ASCII Corp., um muçulmano que apoiava o
Iraque na Guerra do Golfo. Pelo contrário, havia muito soft novo de MSX
sendo distribuido pelo sistema Takeru, a MSX Fan continuava sendo
publicada, muitos grupos surgiam... A MSX Magazine parou de ser
publicada em 1995, mas a MSX Fan seguiu até 1999.
E os japoneses năo se contiveram, e trataram de sondar a
Panasonic, a ASCII e outras empresas para saber por que tudo parou. Será
que havia outro projeto a ser desenvolvido? Na verdade, o motivo era
porque a linha de montagem do MSX Turbo-R estava sendo usada para
fabricar o videogame 3DO. A Panasonic japonesa dizia que quando
transferisse a fabricaçăo para outra unidade, eles voltariam a produzir
o Turbo-R. Mas até agora, nada. Acho pessoalmente que o 3DO foi um
fracasso por causa do "mau olhado" que todos os MSXzeiros do mundo todo
jogaram nele... Ora, pararam com o MSX para fabricar o 3DO! Isso para
nós era uma heresia. Năo há projetos de nenhuma empresa (Sony, Panasonic
ou Sanyo) para um MSX 3 e pelo visto, nada que possamos fazer quanto a
eles. E a ASCII? Até 1999, nada. Depois... Bem, depois eu conto.
Mas para o MSXzeiro brasileiro que já enfrentou o descaso de
Gradiente e Sharp, aguenta qualquer noticia ruim. E a lista? Já tinha
muita gente dentro, para mais de 200 pessoas. Tudo bem feitinho,
dividido por paises, etc., tarefa q me dava um trabalho imenso. Um fato
relevante foi a entrada do pessoal das ex-repúblicas soviéticas na lista
(Russia e Estônia, principalmente). Muitos ainda tinham no seu e-mail a
extensao .su, de Uniăo Soviética. Lembro-me de uma nota na secao de
notícias da MSX Micro (no. 7, se năo me engano) que contava que a Yamaha
vendeu milhares de MSX para a Uniăo Soviética informatizar as suas
escolas. Dai saiu uma nova geraçăo de micreiros, que conheceram o MSX
nas escolas, em salas de aula. Inclusive os MSX deles eram interligados
em rede, por um sistema cliente-servidor: O computador do professor era
o MSX servidor, e os outros, os clientes. Um sistema bem primário de
redes, mas funcional.
Os russos criaram alguns softwares, como um excelente debugger
para programas Assembly e um conjunto de editores de texto, a série
"Tor" (cheguei a usar o Xtor para escrever a primeira versăo dessas
mal-traçadas linhas). Curioso lembrar que o autor, Leonid Baraz é um
russo que hoje trabalha na Intel. E, parece que ele agora foi contratado
pelo Império, depois de ser da Rebeliăo.
Posteriormente tivemos contato com usuários como Egor
Voznessensky, o grupo de usuarios Eternal, entre outros. O Egor, em
particular, tem um senso de humor excęntrico ("Nao deu para finalizar o
projeto por que eu estava estirado no chao da minha dacha - casa -
banhado em cerveja") e muita habilidade com hardware e software. Alem de
projetos como interface IDE, placa aceleradora com Z180 e adaptador para
monitores SVGA, ele fez um sistema operacional (MISIX) e varios
utilitarios, como um compactador (PR) e ferramentas para programacao
Assembly (ZSID, por exemplo). Os projetos de hardware desenvolvidos por
ele e pelo seu "comparsa", Max Vlasov, podem ser encontrados na homepage
da Novatec, 'localizável' nos melhores sistemas de pesquisa da praça.
O segundo FTP site surgiu na ex-Uniăo Soviética. Um usuário
(Oleg Titov) colocou o próprio micro doméstico funcionando em uma linha
telefônica direta 24 hs por dia (a ligaçăo era por conta do governo),
instalou Unix (o bom e velho 386BSD), configurou o servidor de FTP e
criou um FTP site. Nesse vocę tinha a liberdade de criar diretórios e
acessar via FSP também. Um colecionador de jogos (Hans Guilt) mandou
para la (ftp://riaph.irkutsk.su) toda a sua coleçăo de jogos compactados
(mais de 4Mb, o que é um bocado de coisa em termos de MSX), com varios
daqueles joguinhos que fizeram a nossa alegria há alguns anos atrás:
Knightmare, Elevator Action, Lode Runner, Antarctic Adventure, Zanac 1 e
2, Cabbage Patch Kids, etc. Sem contar algumas raridades, como o De
Grotten Van Oberon (um jogo alemăo onde voce pilota um disco voador
dentro de cavernas) e outros que eu nunca vi. Mas no arquivo do Hans năo
consegui encontrar nenhum jogo espanhol (Army Moves, Freddy Hardest,
Paris-Dakar, etc.), convertido dos Spectrum. Será preconceito?
Os Emuladores
Nesse meio tempo (final de 1994) surgiu o primeiro emulador de
MSX para PC. Era o CJS MSX v. 0.99b (CompuJunks), um emulador feito na
Holanda que emulava um MSX 1, com muitos bugs e defeitos. Basta dizer
que todos os aplicativos e jogos que rodavam nesse emulador ficavam
insuportavelmente lentos. O Elite ficava tăo lento que a gente saia para
beber água e quando voltava, ainda faltava terminar a animaçăo da
abertura... Isso no emulador de MSX 1.
Mas alguem já disse que a necessidade é măe da invençăo e irmă
do improviso: Um russo radicado nos EUA (Marat Fayzullin) começou a
fazer, em C, um emulador para MSX 1. Esse era o free MSX, ou o fMSX,
como é mais conhecido. O mais interessante é que ele foi feito para ser
aberto e gratuito (ao contrario do primeiro, que era vendido), e o mais
portável. Há versőes do fMSX para MS-DOS, Win16, Win32, Linux, Mac/OS,
Amiga, Solaris, OSF/1, BSD, Dreamcast, Playstation, etc. Algumas rotinas
foram desenvolvidas por usuários holandeses e japoneses. Legal, isso,
năo? Gente de todo mundo participando do desenvolvimento.
Mas o Marat (que parece mais o Sr. Spock, de "Jornada nas
Estrelas") cresceu o olho e colocou o seu emulador sob uma licença de
distribuiçăo mais restritiva, o que permite que ele ganhe dinheiro com o
trabalho alheio: A versăo Win32 é vendida. Hoje o fMSX está na versăo
2.5, e emula mais ou menos um MSX 2+. Năo é perfeito, mas esta
melhorando... Segundo testei, numa maquina rápida, ele roda bem mais
rápido que um MSX 2+ original. Mas também dá pau, e crasha. E para
completar, o Marat decepcionou os MSXzeiros, ao colocar o fMSX sob
aquela licença e falar asneiras: De apoiador do MSX, ele agora quer e
que todos usem o emulador dele. "O MSX? É apenas um pedaco de silicio."
- foi o que ouvimos. Decepcionantee.
O fMSX nao foi o único emulador a surgir no mercado, ainda bem.
Alem do CJB e do fMSX, apareceram vários. Citarei alguns:
PanaMSX - em desenvolvimento, p/ Win32, e um port do fMSX, só
que free.
NO$MSX - emulador p/ MS-DOS e Win32 - dizem ser bem rápido.
WOOM! - emulador p/ Win32.
NLMSX - emulador p/ Win32, desenvolvido por holandeses.
MESS - em desenvolvimento, usa a estrutura básica do MAME
(emulador de arcades). Alguns brasileiros tem trabalhado no
desenvolvimento da parte de som. Quem lidera o projeto e o Sean Young
(sean@msxnet.org).
Virtual MSX - antigo emulador mudo (năo tem som!) do Sean Young
p/ Win16, recentemente ele disponibilizou o fonte na Internet.
BrMSX - năo só é o melhor emulador de MSX, mas também o mais
rápido e um produto nacional. Foi desenvolvido pelo Ricardo Bittencourt
(ricbit@terra.com.br), em Assembly (de i586), e emula muito bem um MSX
2.
RuMSX - o emulador mais polęmico que surgiu para PC, afinal, os
autores diziam que esse programa emulava um Turbo-R. Só que fica
complicado emular algo que năo se conhece completamente. Ou alguem já
conseguiu explicar o funcionamento do S1990?
Existem muitos outros, mas estes săo os mais conhecidos. Hoje em
dia, c/ tantos processadores rápidos com centenas de megahertz, emular
um "velho" MSX ficou mais fácil, pelo menos no quesito velocidade. Mas
atingir o ponto a ser capaz de "sobreviver" ao Teste de Turing (ser tăo
perfeito ao ponto de confundir-se com a máquina verdadeira), o BrMSX foi
o que chegou mais perto.
Năo tenho nada contra os emuladores. Pelo contrário, acho eles
úteis para estudar a arquitetura da máquina e para testar programas.
Muita gente usa emuladores para desenvolver software para o MSX, como o
emulador de GameBoy para MSX (GEM - http://gem.tni.nl), que foi
desenvolvido com o auxilio do BrMSX. O Uzix, uma implementaçăo de Unix
para MSX (http://uzix.msx.org) foi (e é) desenvolvido com o auxílio do
fMSX. E isso é uma prática comum em outras plataformas (handhelds,
videogames, etc). Mas infelizmente por um tempo, a lista internacional
foi acometida por uma "síndrome do emulador". Falava-se mais no emulador
do que no próprio MSX! Droga... Cansei de mandar mails reclamando, e
hoje em dia melhorou. De vez emquando surge alguem perguntando como
gerar arquivos .ROM para o fMSX, e alguem pacientemente explica. Mas o
MSX voltou a crista da onda.
Isso também vem de uma questăo de conscięncia. Alguns vem com a
desculpa de năo terem espaço, mas tenho um amigo que tem 2 MSX, 1 PC, 1
notebook, 1 videogame e 2 workstations Sun dentro de casa, um pequeno
apartamento de 2 quartos q ele divide c/ os pais dele. Depois dessa,
falta de espaço năo cola. A maioria, em contrapartida, diz q năo vale a pena
desenvolver p/ o MSX, que é um micro ultrapassado e antigo, que devemos
ficar jogando os jogos antigos nos emuladores que săo executados nos
nossos Pentium X com 1 Gb de RAM e terabytes de HD. Infelizmente, o
vírus do PUI (Pensamento Único da Informática) espalha-se mais rápido
que a praga da AIDS. Muitos acham que a melhor soluçăo para vários tipos
de problemas é sempre a mesma, o que é conversa fiada. Pena que somos
poucos os que pensam assim.
Reconhecimento
Logo que comecei a fazer a lista, năo era a minha intençăo
espalhá-la pelos quatro cantos da terra, era apenas fazer um arquivo
para consultar de vez em quando. Mas năo imaginei como o alcance foi
grande! Nunca saí do Brasil, mas fiquei conhecido nos meios MSXzeiros
europeus e por um tempo andei recebendo esporadicamente um mail dando-me
parabéns! Nossa, isso me deixa contente.
A lista foi publicada (na íntegra) em algumas revistas de MSX no
exterior, como a ChipChat (inglesa) e a MCCM (holandesa), com o meu nome
incluído. Recebi solicitaçőes de cópias da lista até da Eslováquia! Isso
mostra como a lista se alastrou e eu fiquei conhecido. Infelizmente o
tempo livre acabou, e a lista ficou parada, a alguns anos eu năo a
atualizo. Também, hoje ela perdeu até o sentido, já temos uma lista
internacional de discussăo, algumas listas locais, centenas de
homepages, newsgroups, sites FTP, etc... Năo tem muito o que fazer +.
Mas aqui no Brasil tive um reconhecimento quase imerecido. Graças ŕ
lista. Se vocę já leu o Caderno de Informática (Informatica Etc.) do
jornal O Globo, deve ter lido a coluna do CAT - Carlos Alberto Teixeira.
Seus artigos săo ótimos, com dicas, e escritos de um jeito bem
divertido. Entăo, tomei coragem e mandei um mail para ele falando da
lista que eu tinha feito, e conversando um pouco. Ele foi muito
simpático, mas me disse que seria dificil falar da lista na coluna dele,
mas veria o que poderia fazer. E năo é que eu fui surpreendido ao abrir
o jornal numa segunda-feira de julho de 1994, e lí na coluna do CAT uma
seçăo com metade do tamanho de toda a coluna falando sobre mim, a lista
e tudo que já tinhamos feito em prol do MSX até aquele dia. Nossa,
fiquei famoso! Meu pai, entăo, todo orgulhoso, recortou e colou o artigo
perto da sua mesa de trabalho, para que todos pudessem ver o que o filho
fazia. Isto é no minimo paradoxal, visto que ele nao gosta do MSX até
hoje. Muitos me deram parabéns, tive os meus quinze minutos de fama, e
garanti mais alguns contatos. Agradeci ao CAT, e ele disse que se
precisasse de mais alguma coisa, era so chamar. Bacana da parte dele, e
o tipo da coisa que deixa qualquer um feliz.
O Newsgroup e a WWW: A Fronteira Final
Foi tentada uma conexăo entre a MSX Net e a lista de discussăo,
feita pelo Pierre Gielen, através do seu BBS, mas sem sucesso. Foi nessa
época que o pessoal começou a discutir sobre abrir um newsgroup na
Usenet. Certo, alguém já tinha aberto um newsgroup alternativo, o
alt.sys.msx. Como é um newsgroup alternativo, năo é encontrado por todos
os news servers do mundo. Nos queriamos um grupo oficial. Só que a
burocracia era muita (quem disse que a Internet era desorganizada?),
dava trabalho: Era preciso um RFD (Request For Discussion - Um convite ŕ
discussăo, para ver se abrir o newsgroup é valido), depois, se aprovado,
e feito um CFV (Calling For Vote - Chamada ... Votaçăo), onde criam-se
e-mails especiais para as pessoas votarem, com comprovante de validade
do voto (năo dá para votar duas vezes com o mesmo e-mail). A contagem é
automática, e para abrir o grupo é necessário mais de 100 votos a favor,
e mais de 2/3 do total ser `SIM'. Afinal, visto todo esse trabalho, um
holandes (Eric Boon) topou fazer essa tarefa, batalhou e finalmente
tivemos 152 votos a favor, algumas abstençőes e menos de 20 contra.
Preenchemos todos os pré-requisitos e fomos aprovados. Aguardamos um
tempo, e em julho de 1995, o nosso newsgroup oficial já estava
disponivel, o comp.sys.msx.
E por último, a WWW. A primeira homepage específica sobre MSX surgiu
pelas măos de Wiebe Weikamp, com um background bem-humorado que
tornaria-se uma marca (cópia do logo da Intel - Intel Inside - trocando
as palavras para "Zilog Inside"). De lá para cá, surgiram centenas de
homepages, divididas por assuntos: desenvolvedores, empresas, grupos de
usuarios, de usuarios, de emuladores, etc. A primeira homepage nacional
foi criada pelo Aleck Zander (aleck@msxbroadcast.com) em 1995 (MSX
BRoadcast), e hoje já existem varias dezenas de homepages MSXzeiras
brasileiras. Aliás, cresceu tanto que até criaram sistemas de procura: o
MSX Resource Center (http://www.msx.org) e o Baboo! (uma brincadeira com
o Yahoo!http://www.baboo.net/baboo.shtml), moderado por usuários
japoneses.
A lista brasileira
No inicio de 1995, resolvi que era necessario abrir uma lista de
discussăo brasileira, para que nós, MSXzeiros brasileiros pudessemos
falar sobre o que nos interessava, em portuguęs. Em janeiro de 1995,
criei na Esquina das Listas (Unicamp) a MSXBR-L, uma lista de discussăo
para o MSX no Brasil. Com o tempo, a lista cresceu, muita gente passou a
fazer parte dela, trocando mil idéias.
A lista migrou da Esquina para a UNESP de Săo José do Rio
Preto, em 1996, e de lá para outro servidor, na Camara dos
Vereadores de Sao Jose dos Campos (1999). Por último, estamos
agora num servidor hospedado nos EUA, com novo endereço e domínio
(msxbr-l@barraponto.org - 2001). A história da lista será contada
em um documento ... parte, pois tem muito mais para contar do
que eu poderia falar aqui. Afinal, até aqui săo 6 anos e meio,
tem muito o que falar. Mas de todo esse trabalho, o mais gostoso
é ver o pessoal se interessando pelo MSX depois de participar da lista.
Tem gente que esta comprando micros novamente, tem gente nova que nunca
viu um MSX, mas resolveu comprar um computador que tem quase a sua idade
para aprender... Afinal, săo mais de 160 usuarios (incluindo os
ghost-readers) na lista, o que gera um trafego considerável. O que é
chato é que ainda aparece gente falando que năo vale a pena, que o
melhor mesmo é usar emuladores e ficar usando-os no PC. Para muitos, o
Windows 95 "é o melhor OS do mundo.", além de afirnar que o Unix é
"ultrapassado". Mas a nossa ira desperta por pessoas com mentalidade
tăo retrógrada e bitolada tem que ser controlada, senăo a lista torna-se
um ringue de vale-tudo virtual. Nessas horas é que a vida de
administrador é dura, justamente porque a gente fica doido para
socar o estúpido, mas temos que dar exemplo de moderaçăo e calma,
e reclamar com o sujeito sem ser grosso ou mal educado.
O Fim... Ou o Início?
Olhando para trás, e vendo o que conseguimos, isto tudo me deixa
satisfeito. Hoje em dia temos varios FTP sites, cinco listas de
discussăo (espanhola, japonesa, internacional, italiana e a brasileira),
dois newsgroups na Usenet, centenas de homepages, e tudo isso começou
com aquele bate-papo com o Max, a um bom tempo atrás. Mas o melhor de
tudo é que isso ajudou a formar nos MSXzeiros uma conscięncia de
"arregaçar as mangas e fazer, năo ficar esperando pelos outros fazerem".
Se năo fosse isso, năo teriamos nada disso feito.
Mundialmente falando, o foco do MSX está na Espanha, Japăo, Holanda,
Brasil e Itália. Em termos de Brasil, muito já foi feito (como canais
IRC em redes como a Brasnet, FTP sites, homepages, etc.), mas ainda
precisamos fazer muito. Mas só em ver o interesse do pessoal em produzir
coisas novas, novos grupos de usuarios - A&L; Soft, Brazilian MSX Crew,
Bit At Work, Zilogic, Other Side, etc., faz-me ver que valeu a pena o
esforço
E que o mercado de 16 e 32 bits tome cuidado! O MSX esta aí renascendo
das cinzas, qual Fenix, em novos formatos, novas versőes, mais usuários,
mais gente. Tem sido muito bom chegar aos 15 anos de MSX reescrevendo
esse texto e vendo que o sonho ainda năo acabou, mas se renovou.
T++ galera! MSX NOW AND 4EVER!
Ricardo Jurczyk Pinheiro - The MSX Big Rider - rjp@i.am